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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Para Refletir...


No ventre de uma mulher havia dois bebes. 

Um perguntou pro outro:

“Você acredita na vida após o parto?”

O outro respondeu, “Sim, claro! Tem que haver algo após o parto. Talvez estejamos aqui para nos prepararmos para o que seremos mais tarde.”

“Tolice,” disse o primeiro, “não existe vida após o parto. Que tipo de vida seria essa?”

O segundo disse, “Eu não sei, mas haverá mais luz que aqui. Talvez nós andaremos com nossas pernas e comeremos com nossas bocas. Talvez teremos outros sentidos que não entendemos agora.” 

O primeiro respondeu, “Isso é um absurdo. Andar é impossível... E comer com nossas bocas? Ridículo! O cordão umbilical nos supre a nutrição e tudo que precisamos. Mas o cordão umbilical é tão curto, a vida após o parto é uma exclusão lógica.”

O segundo insistiu, “Bem, eu acho que há algo e talvez é diferente daqui. Talvez nós não precisaremos desse cordão físico mais.”

O primeiro respondeu, “Tolice, e além do mais, se há vida, porque ninguém nunca voltou de lá? O parto é o fim da vida e após o parto não há nada além de escuridão, silêncio e esquecimento. O parto nos leva à lugar nenhum.”

“Bem, eu não sei,” disse o segundo, “mas certamente nós conheceremos a Mãe e Ela cuidará de nós.”

O primeiro respondeu “Mãe? Você realmente acredita em Mãe? Isso é risível. Se a Mãe existe então onde Ela está agora?”

O segundo respondeu “Ela está em todo nosso redor. Nós somos cercados por Ela, nós somos Dela, é Nela que vivemos, sem Ela esse mundo não existiria.”

O primeiro disse, “Bem, eu não vejo Ela, então é lógico que Ela não existe.”

O segundo respondeu, “Às vezes, quando você estiver em silêncio e focar e realmente escutar, você poderá perceber a presença Dela e você poderá ouvir a amável voz Dela, chamando lá de cima"...


Encontrei este texto lindo no facebook, acho importante ler e refletir sobre a mensagem...

sábado, 14 de junho de 2014

O Velho e o Mar

Ele era um velho que pescava sozinho em seu barco, na Gulf Stream. Havia oitenta e quatro dias que não apanhava nenhum peixe. Nos primeiros quarenta, levara em sua companhia um garoto para auxiliá-lo. Depois disso, os pais do garoto, convencidos de que o velho se tornara salao, isto é, um azarento da pior espécie, puseram o filho para trabalhar noutro barco, que trouxera três bons peixes em apenas uma semana. O garoto ficava triste ao ver o velho regressar todos os dias com a embarcação vazia e ia sempre ajudá-lo a carregar os rolos de linha, ou o gancho e o arpão, ou ainda a vela que estava enrolada à volta do mastro. A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente.

O velho pescador era magro e seco, e tinha a parte posterior do pescoço vincada de profundas rugas. As manchas escuras que os raios do sol produzem sempre, nos mares tropicais, enchiam-lhe o rosto, estendendo-se ao longo dos braços, e suas mãos estavam cobertas de cicatrizes fundas, causadas pela fricção das linhas ásperas enganchadas em pesados e enormes peixes. Mas nenhuma destas cicatrizes era recente.

Tudo o que nele existia era velho, com exceção dos olhos que eram da cor do mar, alegres e indomáveis.

Ernest Hemingway

domingo, 8 de junho de 2014

Risco

Um poema livre
da gramática, do som
das palavras
livre
de traços

Um poema irmão
de outros poemas
que bebem a correnteza
e brilham
pedras ao sol

Um poema
sem o gosto
de minha boca
livre da marca
de dentes em seu dorso
Um poema nascido
nas esquinas nos muros
com palavras pobres
com palavras podres
e
que de tão livre

traga em si a decisão
de ser escrito ou não


(Oswald de Andrade)

domingo, 1 de junho de 2014

Ciranda de Pedra

"O relógio em cima do guarda-louça deu cinco pancadas secas. Virgínia olhou-o demoradamente. Era esta a hora em que as duas costumavam ir para o caramanchão. Conrado, que morava na casa vizinha, atravessava a cerca de fícus e vinha brincar também. Ou melhor, brincar não, que ele era sério demais para brincadeiras e Otávia não gostava de correr para não desmanchar os cachos. Reconstituiu o grupo: Otávia trazia a caixa de aquarelas e ficava pintando, sempre com aquele arzinho de quem não está realmente levando a sério nem ela própria nem os outros; Conrado - que todos os anos recebia medalhas por ser o primeiro da classe - não perdia tempo com conversas: vinha com um caderno ou um livro debaixo do braço e lá ficava a estudar, belo como um deus, no verde do gramado. Bruna lia a vida dos santos ou então cosia roupinhas para as crianças da creche. Quanto a Frau Herta, ficava horas e horas entretida com seus potes de avencas, adubando a terra, arrancando folhinhas secas, observando as plantas com aquele mesmo enternecido cuidado com que observava Otávia: só para Otávia e para suas avencas tinha aquele olhar de servidão. De amor

Virgínia decepou a cabeça de Otávia e colocou a sua no lugar. Acendeu-se o sol. Passeando pelo jardim, a flutuar como uma fada, veio vindo a mãe de mãos dadas com o pai. Tinha o rosto corado como... 'como uma romã', decidiu. Era vermelho demais, sim, mas se usava nos livros dizer que as pessoas saudáveis eram assim como as romãs, 'corada como uma romã!'. Conrado vestia a mesma roupa do moço da folhinha e tinha aquela expressão de deslumbramento: 'Virgínia, como seus cabelos são lindos! Quando eu crescer, vamos nos casar'.

- Será que você não cansa de roer as unhas? Hem, Virgínia?

- E será que você não cansa de... de...

- De quê?

Virgínia lançou-lhe um olhar turvo. Ela cerzia um lenço, 'o lenço dele'. Desviou o olhar para o chão.

- Vou um pouco no portão, volto já.

Na calçada defronte, viu Margarida.

- Vai passear? - perguntou Margarida correndo-lhe ao encontro. - Vai passear?

- Minhas irmãs me convidaram para uma festa mas estou sem vontade de ir... Minhas irmãs são muito ricas. Você já viu prato de ouro?

- Não.

- Pois na casa do meu pai tem prato de ouro. Um dia minha mãe e eu vamos morar lá.

- Sua mãe está melhor?

- Minha mãe sarou, não tema mais nada, está completamente curada, ouviu isso? - Agarrou Margarida pelo pulso: Você duvida?

- Eu não disse nada...

- Disse. Disse que eu sou mentirosa e agora vai Ter que pedir desculpas, vamos peça já desculpas. Depressa!

- Mas Virgínia... Me larga, Virgínia!

- Peça desculpas, senão aperto mais!

- Desculpa - gemeu a menina libertando-se num último esforço. Ficou um momento imóvel, os olhos atônitos cheios de lágrimas. Em seguida, atravessou a rua correndo.

- Margarida, volte, vem cá, eu estava brincando! Margarida, eu estava...

Suspirou fundo ao ver a amiga sumir pelo portão adentro. Sentou-se molemente no degrau de pedra e acariciou as pontas dos dedos intumescidos. Apoiou o queixo nas mãos. E ficou esfregando o pé num boneco desenhado a carvão na calçada." 

Lygia Fagundes Telles, 1954

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Boa Semana =)


Tem gente que é só passar pela gente
que a gente fica contente…
Tem gente que sente o que a gente sente
e passa isto docemente…
Tem gente que vive como a gente vive.
Tem gente que fala e nos olha na face.
Tem gente que cala e nos faz olhar…
Toda essa gente que convive com a gente,
leva da gente o que a gente tem
e passa a ser gente dentro da gente.
Um pedaço da gente em outro alguém.

Fernando Sabino

domingo, 4 de maio de 2014

Coisas Que a Vida Ensina Depois dos 40

Amor não se implora, não se pede não se... espera...
Amor se vive ou não.
Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.
Animais são anjos disfarçados, mandados à terra por Deus para
mostrar ao homem o que é fidelidade.
Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.
As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.
Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.
Água é um santo remédio.
Deus inventou o choro para o homem não explodir.
Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.
Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.
A criatividade caminha junto com a falta de grana.
Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.
Amigos de verdade nunca te abandonam.
O carinho é a melhor arma contra o ódio.
As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.
Há poesia em toda a criação divina.
Deus é o maior poeta de todos os tempos.
A música é a sobremesa da vida.
Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.
Filhos são presentes raros.
De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças acerca de suas ações.
Obrigada, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves que
abrem portas para uma vida melhor
O amor... Ah, o amor...
O amor quebra barreiras, une facções,
destrói preconceitos,
cura doenças...
Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado.
E vive a vida mais alegremente...

Artur da Távola

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Tarde de Maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.


Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.


Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.


E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.


Nunca há testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.


Carlos Drummond de Andrade